Tratamento promete congelar a gordura localizada

Chris Bueno
Do UOL, em São Paulo

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    Com resfriamento intenso e sem cortes, o tratamento promete destruir as células de gordura em regiões como abdome, culote e flancos (pneuzinhos)

    Com resfriamento intenso e sem cortes, o tratamento promete destruir as células de gordura em regiões como abdome, culote e flancos (pneuzinhos)

Já imaginou perder aquela gordurinha localizada que não sai nem com academia nem com reza brava, sem dor e sem esforço? Pois é isso que promote a criolipólise, novo tratamento que utiliza o congelamento para nocautear as células de gordura.

A criolipólise foi a sensação do 68º Encontro da Academia Americana de Dermatologia, realizado em março deste ano em Miami (EUA). Conhecida nos Estados como coolsculpting, o método já chegou ao Brasil, onde já é aplicado em algumas clínicas particulares.

O grande benefício da criolipólise é o fato de ser um método que não requer cortes, agulhas ou anestesia. “Este é o diferencial do procedimento: não é invasivo e destrói a célula", aponta a dermatologista Mariana Barbato. "Os procedimentos para gordura localizada que existiam até o momento apenas diminuiam a célula de gordura, sem destruir o adipócito."

Outra vantagem é que o tratamento conseguiria alcançar as gordurinhas mais difíceis de serem eliminadas (até mesmo com lipoaspiração). “Abdome, flancos (pneuzinhos), parte interna das coxas e goordura das costas podem ser tratadas”, afirma Barbato. Além disso, não há o risco de aumento de gordura na circulação sanguínea, como acontece com alguns outros equipamentos, o que faria o procedimento mais seguro.

Alguns especialistas ainda olham com receio para o novo método, e apontam que ainda é preciso tempo – e mais informações – para julgá-lo eficiente ou não. “Não há evidências publicadas em revistas de prestígio nem em congressos médicos que deem suporte científico a esse método”, alerta Marcio Mancini, chefe do Grupo de Obesidade da Disciplina de Endocrinologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

Como funciona

A criolipólise é feita através de um aparelho chamado Zeltiq, que literalmente “mata” as células de gordura de frio. O tratamento elimina a gordura localizada logo abaixo da pele. O aparelho, com uma ponteira que é acoplada à pele, faz uma sucção dos tecidos e induz a um resfriamento controlado da gordura, como explica Solange Pistori Teixeira, dermatologista da Unifesp Universidade de São Paulo) e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica (SBCD).

Quem inventou a criolipólise

Foram os estudos dermatologista norte-americano Rox Anderson, da Escola de Medicina de Harvard (EUA), que deram origem à criolipólise. O dermatologista descobriu que as células adiposas são extremamente sensíveis ao frio, e que isso poderia ser uma arma eficiente no combate à gordura localizada.

A técnica foi testada em 1.200 pessoas nos Estados Unidos e na Europa com um desfecho promissor: a média de perda de circunferência foi de quatro centímetros por sessão. Os primeiros estudos foram realizados em porcos, em 2008, na cidade de Boston, e em setembro de 2010 a tecnologia foi liberada para uso em seres humanos pelo Food and Drugs Administration (FDA), agência governamental norte-americana que controla alimentos e remédios no país. A agência também determinou que um nível determinado de temperatura e tempo de exposição fossem estabelecidos para evitar queimaduras de frio ou qualquer outro risco. No Brasil, a Anvisa liberou o Zeltiq para a realização do procedimento.

Durante o tratamento, o equipamento ataca somente as células de gordura da região selecionada, sugando a gordura e resfriando a região a -10º C durante uma hora. A pele é protegida por uma película de gel durante a sessão.

A explicação para o processo é simples: as células de gordura são extremamente sensíveis ao frio, por isso, o resfriamento intenso e controlado ajuda a combatê-las."A baixa temperatura provoca a desagregação de gordura e danifica as células, que são eliminadas pelo organismo ao longo de, em média, dois a três meses”, aponta Teixeira.

No início, o paciente sente como um puxão firme e um frio intenso, mas suportável, na região aplicada. Logo após, a sensação é de formigamento na região. Os especialistas garantem que essas sensações são suportáveis e passageiras, e que o paciente não sente dor durante, nem depois do tratamento.

Segundo a especialista, as células congeladas durante o procedimento são puxadas pelo aparelho através de vácuo e são interpretadas pelo organismo como células estranhas, sendo liberadas lentamente pelo sistema linfático e metabolizadas no fígado, sem comprometer seu funcionamento.

A recuperação da criolipólise é imediata (só fica uma vermelhidão no local tratado e um inchaço que pode durar até duas semanas) e os resultados podem ser percebidos em até dois meses após a primeira aplicação. “Em cada sessão perde-se cerca de 20% a 25% da gordura da região aplicada. O número de sessões varia de acordo com a espessura de gordura de cada uma e do resultado esperado pelo paciente. Mas a média de sessões são de duas a três por região”, diz a dermatologista Monica Felice. 

O preço de cada sessão, vale ressaltar, é bem salgado: varia de R$ 2.500,00 a R$ 3.000,00.

Os especialistas garantem que os resultados são permanentes – desde que o paciente tome cuidados para não voltar a engordar. A estimativa apresentada pela Academia Americana de Dermatologia é de que mais de 50.000 pacientes no mundo já tenham realizado esse procedimento. No Brasil, as clínicas calculam que uma faixa de 3.000 pessoas já passaram pelo procedimento.

Contraindicações

Apesar de ser um tratamento que promete revolucionar a área estética, a criolipólise não é recomendada para pessoas com sobrepeso ou obesas. Os especialistas alertam que o procedimento só é indicado para retirar gorduras localizadas em pessoas que estejam com o peso ideal, sendo utilizada para definir as linhas do corpo – e não para emagrecer.

Não há evidências publicadas em revistas de prestígio nem em congressos médicos que deem suporte científico a esse método

Marcio Mancini, chefe do Grupo de Obesidade da Disciplina de Endocrinologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP

Além de pessoas obesas ou com sobrepeso, pessoas com diabetes, hérnia no local a ser tratado, urticária ao frio, crioglobulinemia (doença relacionada ao frio) e gestantes não podem realizar o tratamento. Pessoas com menos de 18 anos também não podem fazer a criolipólise.

Mas os especialistas apontam que as contraindicações são mínimas. “O mais importante é que pacientes com diabetes, problemas cardíacos ou com outras contraindicações para cirurgia podem fazer criolipólise”, declara Barbato. Mas alguns cuidados devem ser tomados, como respeitar o intervalo entre as sessões – que deve ser de seis a oito semanas – se for necessária mais de uma intervenção, e também que o cálculo de peso ideal seja feito corretamente e levado em consideração.

Os efeitos colaterais também são mínimos: vermelhidão, inchaço, pontos arroxeados e dormência da pele são comuns após o tratamento e são transitórios. Mas o que preocupa os especialistas é outro aspecto.“Esse tratamento, como tantos outros, oferece uma promessa de resultado milagroso que não depende dos esforços do indivíduo, atraindo os pacientes que costumam fazer uso de outros métodos sem validação (como ultrassons, fornos, massagens, etc.)”, aponta Mancini.

Falsas promessas

E por falar em resultados milagrosos, algumas clínicas estão “vendendo” a criolipólise com a promessa de eliminar a gordura visceral - aquela que fica entre os órgãos internos e pode levar a alterações metabólicas como aumento de glicose, triglicérides, problemas circulatórios e cardíacos.

Segundo os médicos, isso é impossível: “Para gordura visceral, apenas dieta e exercício [resolvem]. Nem mesmo a lipo retira”, explica Barbato, apontando que nenhum tratamento estético pode eliminar essa gordura - o que também seria muito perigoso, devido à sua proximidade com fígado, pâncreas, rins e até mesmo o coração.  Felixe ressalta: “a criolipólise mão elimina a gordura visceral, só aquela mais externa, especialmente de regiões como abdome, flancos e a ‘gordurinha do sutiã’”.

O que os médicos enfatizam é que, apesar do respaldo da FDA (veja box), o tratamento ainda é muito recente, e há poucas pesquisas que comprovem sua eficácia e segurança. Difícil vai ser segurar o entusiasmo das pessoas que querem perder a gordurinha localizada.

Outro alerta importante é que o aparelho Zeltiq (certificado pela FDA e pela Anvisa) já ganhou um “genérico”, que está em operação em algumas clínicas para fazer a criolipólise, com um preço mais baixo. Porém, esse outro aparelho não tem registro na Anvisa e existem relatos de queimaduras por frio e outras complicações. É preciso muito cuidado na hora de escolher a clínica para realizar o tratamento, verificando se o local, o corpo médico e o aparelho são certificados para fazer a criolipólise. A segurança ter que vir sempre em primeiro lugar.

 

 

 

 

 

 

 



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